A procissão festiva que acabou em briga
Por Carlos Jayme de Siqueira Jaccoud, em 17 de novembro de 2009

O 1° de junho de 1893 amanheceu prometendo ser um belo dia de outono. Havia grande interesse do pacato povo de Nova Friburgo para que o dia fosse bonito. Naquela quinta feira, dia santo de guarda, a Igreja Católica consagrava a solenidade de “Corpus Christi”. Ele seria, ainda, mais festivo porque nele seria comemorado o encerramento do Mês de Maria, terminado na véspera.

Muito cedo, ainda ocultos pela densa cerração, repicaram em festa os sinos da Matriz. O som daqueles sinos, colocados no alto da torre da igreja, a mais alta construção da cidade, ecoava por todo ela. Eles eram o arauto da cidade, batiam as horas, repicavam festivamente nas horas de alegria ou, em cadência fúnebre, indicavam o luto pelo falecimento das pessoas gradas da terra.

O espesso nevoeiro daquela manhã era indício de que, quando ele se dissipasse vencido pelo sol, um belíssimo céu azul cobriria as nossas montanhas ainda recobertas pela exuberante mata atlântica. A insaciável goela das locomotivas da Leopoldina mal tinham começado a engoli-la.

Às oito horas da manhã começou a missa solene na Matriz. O cônego José Silvestre Alves de Miranda, pároco da cidade, cargo que iria ocupar durante meio século, primeiramente como cônego e depois como o monsenhor Miranda, a quem a cidade tanto deve, oficiou a missa e, no sermão, convidou os fiéis para a procissão que seria realizada à tarde e conclamou os residentes em torno da praça para que varressem a rua, então de terra e as calçadas e enfeitassem a fachada das suas casas para a passagem da procissão. Pedia para que as famílias enviassem crianças vestidas de ”anjos” e “virgens”, como era usual na época, para maior brilhantismo da procissão.

Às cinco horas, hora marcada, igreja repleta, ultimavam-se os preparativos para a procissão. O sol de fim de outono já se aproximava dos três cones rochosos do poente e, como um enorme farol enviado pelo Criador, iluminava de frente a fachada da Matriz que resplandecia com a sua pintura branca. Na frente da igreja uma multidão aguardava a saída do cortejo. De cada lado da porta da igreja as bandas de música Sociedade Recreio dos Artistas e a Sociedade Estrela. Embora houvesse uma grande rivalidade entre elas, ali estavam para participarem da festa.

Começou a saída da procissão. Na frente, conduzindo a Cruz Procissional, o presidente da Irmandade do Santíssimo Sacramento ladeado por dois guardas de honra, que seguravam as duas fitas vermelhas que caiam do pé da cruz, seguidos dos membros da irmandade, todos trajando a opa vermelha característica e carregando as tocheiras com grossas velas de cera. Depois, em filas duplas, uma para cada lado da rua, os membros do Apostolado da Oração seguidos pela Associação das Mães Cristãs, pelos Devotos de N.S. das Dores e outras congregações, todas carregando grossas velas de cera. No meio do cortejo, de opa vermelha, os irmãos da Irmandade carregavam o pálio dourado sob o qual o cônego Miranda conduzia o Santíssimo Sacramento. Fechando o cortejo caminhava o povo e as duas bandas de música as quais, engolindo a recíproca rivalidade, se alternavam tocando músicas religiosas previamente ensaiadas.

A procissão, uma vez formada, foi caminhando para fazer o contorno da Praça 15 de Novembro, que até pouco tempo atrás chamava-se Praça Princesa Isabel, nome mudado com o então recente advento da república. As casas, todas elas, com as janelas enfeitadas com flores, toalhas bordadas e muitas velas acesas.

Quando o cortejo já estava retornando pelo outro lado da praça o sol desapareceu por trás das montanhas. Um belo espetáculo foi, aos poucos, aparecendo: as velas carregadas pelos fiéis passaram a suplantar as bruxuleantes luzes dos poucos lampiões a querosene que constituíam a iluminação pública da cidade. O cortejo passou a iluminar a praça.

Sob o barulhento bimbalhar dos sinos e o espocar de foguetes, alguns deles iluminando a noite com belíssimas estrelas cintilantes, a procissão entrou na Matriz. Do lado de fora a banda de música Recreio dos Artistas tocava uma marcha. Antes que ela terminasse a execução da música, a banda da Sociedade Estrela rompeu com um dobrado. “Começou a confusão que era de prever” diz ”O Friburguense” de então. O “pau quebrou”, ou melhor, na falta de porretes o que “quebrou” mesmo foram os instrumentos das bandas. Diz aquele jornal que a confusão só terminou com a chegada do doutor delegado e seus poucos auxiliares, mas várias cabeças já haviam sido quebradas. Foi instaurado o competente e inútil inquérito policial.

E assim, melancolicamente, terminou uma festiva procissão na nem sempre calma e tranqüila cidade de Nova Friburgo.

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