E por falar em comício...
Por Carlos Jayme de Siqueira Jaccoud, em 17 de novembro de 2009

Corria o ano de 1934.

Nova Friburgo era uma cidade pequena. Mury e Conselheiro Paulino eram lugares distantes onde só se podia ir de trem ou de automóvel ou de bicicleta e, nesses casos, por uma estradinha estreita, poeirenta e sinuosa. Lumiar e S.Pedro, nem se fala: só a pé ou a cavalo. A Olaria do Cônego só tinha mesmo a velha olaria e, espalhadas, pouco mais de uma dúzia de casas, se tanto. Ao longo da estrada do Cônego podíamos, ainda, ver os velhos trilhos do bondinho, já desativado, que servira para levar à estação da Leopoldina, a produção agrícola do Cônego.

Nova Friburgo era uma cidade calma. Não havia supermercado. Na casa Knust, na esquina da avenida Alberto Braune com a rua Duque de Caxias, podia-se comprar de tudo: “secos e molhados”, enxadas, armas e munições, remédios e formicida, cachaça e foguetes. No meio fio, à sua frente, existiam argolas de ferro para amarrar os animais de carga ou que serviam de condução para os que vinham das redondezas da cidade. A praça, então Praça 15 de Novembro, era bem cuidada e nela, todas as noites, as moças iam passear na alameda da direita ou na mais estreita, chamada “caminho da formiga”, para trocarem olhares com os rapazes até ás nove horas, hora em que passava o trem vindo das bandas do norte, resfolegando em marcha lenta, badalando o sino, avisando aos que ali estavam que estava terminada a paquera e era hora de voltarem para casa. Não foi à-toa que ele ganhou o nome de “trem vassoura”, porque, realmente, varria a moçada da praça.

As ruas de Friburgo eram tranqüilas. Pavimentadas só as do centro, por onde passavam uns poucos carros e muitas bicicletas. Ônibus não havia, pois a tentativa feita pelo “seu” Azevedo, montando um ônibus sobre o chassis de um caminhão, aberto dos lados, circulando entre a Estação e o final da rua General Osório e cobrando 200 réis por pessoa, fracassara por falta de passageiros. Até os enterros eram tranqüilos. O defunto saía de sua casa carregado à mão até o cemitério, passando, obrigatoriamente pela Matriz, quando o falecido era católico. Quando membro da Irmandade era saudado pelo sino da igreja. E como havia defuntos pesados...

Mas, naquele ano, nem tudo era calmo e tranqüilo. Havia aqui, como em todo o mundo da época, uma efervescência política. Aqui, de um lado, a “Ação Integralista Brasileira”, a extrema direita e, do outro lado, a “Aliança Nacional Libertadora”, a extrema esquerda. No meio, os getulistas e os galdinistas assistiam, calmamente, o degladiar das duas facções, como que esperando que elas se devorassem.

Numa bela manhã, a cidade amanheceu coberta de panfletos da “Aliança Nacional Libertadora”, convocando o povo para um grandioso comício que se realizaria, no dia seguinte, no coreto em frente da Igreja Matriz. Naquele tempo, em Friburgo, os volantes eram a única maneira de se convocar para um comício. Não conhecíamos pichação de paredes. Os jornais da cidade, simples semanários, só eram lidos por poucos. Rádio, nem pensar.

A cidade começou a ferver. Os integralistas diziam que não iam permitir que os comunistas ofendessem a cidade com um comício vermelho. Os da “Aliança” diziam que não seriam os “galinhas-verde” que iriam impedi-los. Estava armada a confusão.

O dia do comício amanheceu nervoso. As ameaças mútuas engrossavam.

No Colégio Modelo, o único ginásio da cidade, o professor Carlos Cortes reuniu os alunos e os aconselhou a permanecerem em casa. A última aula foi suspensa.

A hora do comício chegou. No coreto, um grupo de dirigentes da “Aliança”, com alguns oradores de pulmão forte, deu início ao evento. Ainda não existiam os alto-falantes e os discursos tinha que ser feitos na base do peito. Em frente, entre o coreto e a Matriz, um punhado de disciplinados partidários e simpatizantes assistia à pregação. A uma prudente distância postou-se uma pequena multidão de curiosos que ali fora para ver o “pau quebrar”.

O comício começou e, com ele, os inflamados discursos clamando pela “democracia do proletariado” e pelo fim da escravidão fascista.

Bem em frente ao coreto, na esquina, entre a Matriz e a rua São João, existia o bar do “seu” Mário e este, também curioso, lá estava em pé em uma das portas do bar, também aguardando os acontecimentos. Eis que alguém chegou e disse a ele: “os integralistas estão chegando aí”. O “seu” Mário, que antes de ser curioso sabia preservar o seu suado patrimônio, não conversou: passou a mão no gancho e, mais do que depressa e com energia, abaixou as portas de aço do bar.

Todos conhecem o barulho que faz uma porta de aço, daquelas onduladas, quando abaixadas com violência. Avaliem o efeito daquele barulho à noite, no meio de uma praça sem automóveis, sem buzinas, sem casas vendedoras de discos e, sobretudo, no meio de um ambiente de tensão. Pois foi o que aconteceu. O pessoal do coreto, salvo um que ficou paralisado pelo medo, jogou-se no chão. Dos assistentes e curiosos que estavam nas redondezas não ficou um só. Correu todo mundo. Dizem que tem gente correndo até hoje...

E assim acabou um tenso comício na calma e tranqüila Nova Friburgo de 1934.

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