O "Bala Ó"
Por Carlos Jayme de Siqueira Jaccoud, em 20 de maio de 2009

Toda cidadezinha que se preza tem sempre um tipo popular, em geral mendigo, muitas vezes ébrio, que perambula pelas ruas e que tem um apelido do qual, geralmente, não gosta e que serve de galhofa para a garotada.

Nova Friburgo, que também era uma cidadezinha, nos idos da segunda e terceira décadas do século passado, as primeiras que conhecemos, também tinha alguns desses tipos. Havia a “tia Eva”, o “Todo Molhado”, o “Olímpio Errado” e o “Zé Canivete”, que não bebiam e o “Mão Pelada” e o “Sebastião Vira Bicho” que, em compensação, bebiam por todos eles.

O “Vira Bicho” trabalhava duro na parte da manhã, batendo de casa em casa, vendendo verduras e frutas da terra, levadas num enorme tabuleiro equilibrado na cabeça. Ganhava o almoço de alguma freguesa e quando acabava a mercadoria, lá pelas 4 ou 5 horas da tarde, começava a operação funil : enchia a cara. Saía pelas ruas, cambaleante, fazendo um escarcéu danado até ser preso, ou melhor, até ver um dos quatro ou cinco “soldados de polícia” que Friburgo possuía, (bons tempos....), com perneiras e farda caqui, dirigir-se em sua direção. Ele não se deixava prender. Nem era preciso. Ele ia logo caminhando para a cadeia, no porão da Prefeitura, onde hoje está o Porão de Arte. Entrava em uma das celas e passava a noite curtindo o porre. Na manhã seguinte, recomeçava a seqüência da véspera.

O “Bala Ó”, pensamos, foi o tipo mais marcante da época. Éramos, ainda, muito pequenos quando tomamos conhecimento da sua existência. Não bebia. Onde morava, não sabíamos. De onde viera, também ignorávamos. Diziam que fora um escravo e que combatera na Guerra do Paraguai. Era um mulato baixo, atarracado, de cabelos grisalhos, que perambulava pela cidade vestindo roupas que já haviam envelhecido em outras pessoas maiores do que ele. O seu nome era João. João de que ? Pouco importa. O que se sabia e muito bem é que tinha um apelido do qual detestava: “Bala ó”. Se alguém gritasse o seu apelido, quando ele passava, pronto... o mundo desabava. Ele espumava, esbravejava, e ia logo dizendo quem era “Bala ó”... Penso que por ele foram proferidos os primeiros palavrões que ouvimos. E havia sempre alguém, escondido, para gritar o “Bala ó”. Mas tinha que ser escondido, ou de bem longe, porque o homem ficava uma fera.

Bem ali na Praça, então Praça 15 de Novembro, onde hoje está o Bradesco, havia um cinema, anterior ao extinto Cine Eldorado. Por cima o Hotel Gloria, tudo depois devorado por um incêndio. Era, então, prefeito de Friburgo o Dr. Balthazar da Silveira, médico que fizera parte da “Missão médica Brasileira’, enviada para participar da Primeira Guerra Mundial. Ele era solteiro e morava no Hotel. Numa manhã radiosa de verão, com o hotel repleto de veranista, como era comum naquele tempo, o pobre João ia caminhando por entre os trilhos da Leopoldina, que por ali passavam, quando alguém gritou o seu apelido. “Bala ó” parou, olhou para as janelas do Hotel que estavam repletas de gente e, ali, vislumbrou o Prefeito. E deu o troco : “Até o sinhô, seu doto Bartazá ? Se não tivesse tanta moça na janela eu mandava o sinhô ir pra .........” . E mandou.

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