O dia em que Nova Friburgo quase mudou de nome
Por Carlos Jayme de Siqueira Jaccoud, em 17 de novembro de 2009

D. João VI, o rei bonachão, a quem o Brasil tanto deve, além do problema da eterna falta de dinheiro, andava seriamente preocupado com a maneira pela qual estava sendo feita a colonização do país. Todos a olhavam com o objetivo único de aumentar a mão de obra bruta e barata para desbravar as terras virgens. Como não faziam questão da qualidade, usavam o recurso de buscar a mão de obra escrava africana. A nossa agricultura era primitiva. Não tínhamos artesãos. D. João, entre um frango assado e outro, preocupava-se em conseguir imigrantes mais qualificados. Assim, de braços abertos, recebeu a proposta de Gachet para a instalação de uma colônia de suíços no Brasil. O contrato para a migração foi assinado e, em fins de 1819, os colonos começaram a chegar e foram localizados em terras de Cantagalo. Havia necessidade de dar um nome àquelas plagas. Em 3 de janeiro de l820, “D. João, por graça de Deus rey do reino unido de Portugal e do Brasil e Algarves, d’aquem e d’alem mar em Africa, senhor de Guiné e da Conquista, Navegação e Commercio da Etiopia, Arabia, Persia e da India, etc”, por alvará daquele dia, batizou o lugar com o nome de Vila de Nova Friburgo, em homenagem ao Cantão suíço de onde veio a maioria dos colonos. Nova Friburgo, um belo nome!

Passaram-se anos. Viramos Império, depois República e, em 1930, Getulio Vargas, candidato derrotado nas eleições para a presidência do país, alegando ter havido fraude nas eleições, chefiou uma revolução que o tornou chefe do “Governo Provisório” do Brasil. O gosto do poder deve ser bom, pois aquele “provisório” durou 15 anos. Em 1937, às vésperas de uma eleição para eleger o seu sucessor, ele dissolveu o Congresso, criou o regime que batizou de “Estado Novo”, tornando-se ditador do País. Como tal, nomeou interventores para governar os Estados que, por sua vez, nomearam os prefeitos dos municípios. Para o nosso estado nomeou seu genro, Ernani do Amaral Peixoto. Em todo regime ditatorial, os chefes são endeusados pelos seus subordinados, pois estes dependem daqueles para conservarem seus empregos. É o regime do “puxassaquismo”. A bajulação aos chefes é tamanha e tão constante, que eles acabam acreditando nela. Isto até muda nomes de cidades. Pelo Brasil afora vários deles foram trocados. Em Minas Gerais, a cidade de Figueira do Rio Doce, por exemplo, teve o nome mudado para Governador Valadares, nome do então interventor naquele Estado. Isto acontecia e os descontentes não podiam “piar”. As câmaras municipais, estaduais e federal haviam sido fechadas. A imprensa, amordaçada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), só publicava o que interessava ao governo e quem reclamasse em público era preso pelo DOPS (Departamento da Ordem Política e Social), a nossa GESTAPO da época.

Novembro de 1940. O mês começara chuvoso e tudo indicava que ia continuar assim. As autoridades friburguenses, para marcarem um ponto com os todo-poderosos da ditadura, resolveram marcar uma solenidade para comemorar o 10 de novembro, terceiro aniversário da criação do Estado Novo. Como, naquele tempo, ainda não havia ginásios na cidade, os únicos lugares cobertos capazes de acomodar grande número de pessoas eram os cinemas Leal e Eldorado, recém inaugurado. Assim, a festa de recepção foi marcada para a manhã do dia 10, domingo, no Eldorado. O interventor do estado foi convidado mas, por não poder comparecer, enviou para representá-lo o coronel Feio, coronel de “mentirinha” mas chefe da “gestapo” fluminense. No palco, todo enfeitado do cinema a mesa para as autoridades. Na platéia, o público constituído pelos interessados em aparecer, pelos curiosos e alunos do Grupo Escolar. Como sempre, a platéia, repleta, recebeu com palmas as autoridades. Começaram os discursos de “puxação”. A certa altura foi dada a palavra a um professor de Niterói que, licenciado, aqui residia com a família. Era bastante conhecido na terra. O professor, ao final de um inflamado discurso, propõe aos presentes que o nome da cidade fosse mudado, de Nova Friburgo para Amaral Peixoto. Quase que o “pau quebrou”. Vaias e protestos. Mas houve muita gente que bateu palmas. Sorte nossa que o interventor não engoliu a “puxada”. Se não, seriamos hoje, oficialmente, cidadãos “amaralpeixotenses”...

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