Da Suiça até o Brasil
A primeira etapa da viagem - de Estavayer-Le-Lac até a Holanda

04 de Julho de 1819

A primeira etapa da viagem com destino ao Brasil iniciou-se em Estavayer-Le-Lac. Essa cidade, situada na margem sudeste do lago Neuchâtel, foi o ponto de encontro dos emigrantes provenientes dos cantões de Fribourg, Valais, Vaud, Genève e Neuchâtel. Nessa data, os emigrantes assistiram, pela manhã, à última missa celebrada em solo helvético. Na cerimônia, o Bispo de Lausanne e Fribourg falou aos viajantes com otimismo sobre o futuro que os aguardava. Lembrou aos "heimatlosen" a oportunidade do reencontro com uma nova pátria e recomendou a todos a perseverança no trabalho, as virtudes cristãs e a fidelidade ao Rei, D. João VI. Observou, enfim, que são predicados, como lealdade e honestidade, que mantém a boa reputação do nome helvético.

Após a pregação, foram nomeados o cura e o pároco de Nova Friburgo, e anunciou-se o primeiro casamento da recém-criada paróquia. Ao final da missa, os emigrantes acompanharam emocionados a Oração dos Viajantes, e partiram à procura de seus pertences. Um rufar de tambor avisou que era hora de iniciar a jornada: três barcas ancoradas esperavam os emigrantes, e uma multidão de 6.000 pessoas acompanhava os preparativos e as despedidas. Sobre uma colina, o Bispo enunciou seu adeus e sugeriu a semelhança entre o destino dos emigrantes e o dos heróis do Êxodo em busca da terra prometida. O sinal da cruz, abençoando os emigrantes, foi seguido por cânticos entoados pelos colonos. Ouviu-se, ao fundo, uma salva de canhões, que foi respondida por tiros de fuzil disparados das barcas. Por volta do meio-dia, iniciou-se a festiva partida: ao som de cantos, lentamente os barcos começaram a se mover. Uma única emoção uniu viajantes e espectadores.

Nesse primeiro dia de viagem, o comboio percorreu o lago de Neuchâtel e alcançou a ponte sobre o rio Thile, no canal que liga aquele lago ao de Bienne, onde aconteceu o primeiro imprevisto da viagem: sem a prévia reserva de hospedagem para os viajantes, estes foram obrigados a passar a noite ao relento, já que suas barcas não possuiam cobertura. Esse inconveniente noturno contrastou com a festividade da partida matinal.

05 de Julho de 1819

Durante esse dia as embarcações cruzaram o canal de Bienne e chegaram a Nidau, na margem esquerda do Aar. Neste trecho, os viajantes foram vitimados por um forte calor e, ao final do dia, uma tempestade de chuva e granizo deixou-os completamente molhados.

06 de Julho de 1819

Chegada a Soleure, onde os emigrantes foram recebidos de forma festiva. O dia posterior foi gasto no embarque de colonos desta região.

08 de Julho de 1819

O comboio alcançou a cidade de Brugg.

09 de Julho de 1819

As embarcações penetraram no rio Reno, limite da Suíça com a atual Alemanha e atingiram Laufenboug. Em determinadas épocas era impossível realizar uma navegação segura entre esta cidade e Schaffingen, como ocorreu naquela ocasião. Assim sendo, passageiros e carga seguiram sobre carroças num trecho de aproximadamente de 1 milha.

10 de Julho de 1819

Bâle foi o ponto de confluência de toda a emigração, onde aos colonos provenientes de Estavayer-Le-Lac se reuniram os de Berne e da Suíça Alemã. Nesta etapa da viagem ficou patente a falta de organização do empreendimento. O atraso das embarcações, desrespeitando as datas previamente fixadas, motivou a chegada simultânea da maioria dos emigrantes, ocasionando problemas de alojamento. Por outro lado, o número de barcos, previsto para a etapa seguinte, através do Reno, não foi suficiente em virtude do excesso de bagagem. Na verdade, tal excesso era decorrente de caixas e barrís de uma futura indústria, idealizada pelos agenciadores da emigração. Este fato demonstra a existência de interesses mercantís por trás da organização da colônia.

13 de Julho de 1819

Somente, nessa data, o primeiro comboio com emigrantes da cidade de Fribourg partiu incompleto de Bâle e alcançou Vieux-Brissac.

14 de Julho de 1819

Em Kehl, tomou-se a decisão de aguardar duas embarcações do primeiro comboio ainda remanescentes em Bâle. A viagem foi retardada por um dia, e os passageiros, mais remediados, aproveitaram para visitar localidades próximas.

16 de Julho de 1819

O primeiro comboio, agora completo, chegou a Fort-Louis, localidade situada em território francês. Nas cidades portuárias, os colonos adquiriram seus alimentos, sendo que os mais abastados faziam, pelo menos, uma refeição fora dos barcos, geralmente no final da tarde, quando chegavam aos portos, onde passariam a noite. Os emigrantes mais pobres preparavam seus alimentos no interior das embarcações, fazendo uso de uma dieta simples, composta basicamente de pão e carne. Com relação ao pernoite, a situação era semelhante, pois os colonos de mais posse procuravam albergues, dormindo com mais conforto e evitando os mosquitos dos locais insalubres do Reno. A maioria, entretanto, permanecia nos barcos, dormindo sob um telhado feito de tábuas. O alto preço das hospedagens e da alimentação foi motivo de queixa entre os colonos, e demonstrava a intenção das populações ribeirinhas de tirar proveito dos emigrantes. De um modo geral, os habitantes dessas cidades não recebiam bem os colonos, isto em decorrência da impressão negativa deixada por levas anteriores de emigrantes suíços também a caminho do Novo Mundo.

17 de Julho de 1819

Em Germesheim, na Baviera, as embarcações foram retidas por seis horas, aguardando resolução quanto a taxas alfandegárias imprevistas.

18 de Julho de 1819

Os emigrantes souberam também conquistar boa receptividade. Em Mannheim, por exemplo, a alegria que reinava a bordo, animada por música e dança, despertou a simpatia dos habitantes daquela cidade, considerada pelos viajantes como uma das mais belas por eles contemplada.

19 de Julho de 1819

Em Stuckstad, pequena vila do ducado de Darmastad, três barcos, transportando colonos de Berne, ultrapassaram o comboio friburguense.

20 de Julho de 1819

Chegada a Mayence. Durante a viagem os emigrantes passavam o tempo observando a paisagem dos vales e das vilas às margens do Reno. No interior das embarcações a vida coletiva também reservava distrações: os ofícios religiosos, as preces, as brincadeiras infantis, as conversas e, até as discussões, afastavam temporariamente o tédio. Acontecimentos alegres ou tristes, como nascimentos e mortes (houve, pelo menos, duas no percurso sobre o Reno) quebravam a monotonia da viagem.

21 de Julho de 1819

O vento impediu a partida do comboio em Boppard, na Prússia, retardando-a por, aproximadamente, cinco horas.

22 de Julho de 1819

Em Andernach, a polícia impôs controle severo sobre as embarcações para verificar se nelas se escondiam passageiros clandestinos.

23 de Julho de 1819

Dificuldades com taxas alfandegárias marcaram a passagem por Cologne.

24 de Julho de 1819

Chegada a Himmelgeist. À medida em que a viagem se alongava, em virtude de entraves alfandegários e da má vontade das autoridades, os colonos inquietavam-se e, o que era mais grave, ficavam sem recursos para suas despesas. Assim, todos ansiavam pela chegada à Holanda, a partir de onde seriam mantidos pelo rei Português.

25 de Julho de 1819

Passagem por Wessel.

26 de Julho de 1819

Finalmente, a primeira cidade holandesa.

27 de Julho de 1819

A navegação foi interrompida. O colono Porcelet, de Estavayer-Le-Lac, se dirigiu à capital da Província para solucionar novos problemas de portagem.

28 de Julho de 1819

O comboio atingiu o Waal, em Nimègue, ramo do delta do Reno.

29 de Julho de 1819

Chegando a Dordrecht os colonos foram transferidos imediatamente para Mijl, pequena localidade situada ao sul daquela cidade.




A segunda etapa da viagem - A longa espera na Holanda

Se o trajeto até Mijl foi marcado por uma série de contratempos, a chegada à Holanda trouxe novas esperanças aos colonos. De acordo com o contrato de emigração, a partir daí, eles seriam mantidos pelo Rei, D. João VI e, imediatamente, embarcados para o Brasil. De fato, os colonos passariam a receber uma porção diária de alimentos, mesmo que de qualidade nem sempre recomendável, mas quanto ao embarque, nada indicava que fosse breve.

Durante a espera, os colonos permaneceram acampados em grandes barracas, em local úmido e insalubre, o que, somado aos efeitos das más condições da viagem e da alimentação inadequada, fez surgir a ameaça de doenças e epidemias. A varíola atingiu principalmente as crianças, mas as autoridades sanitárias holandesas conseguiram controlar o surto através da vacinação. Febres intermitentes e disenterias já começavam a se manifestar em Mijl, o que voltaria a ocorrer em maiores proporções em toda a travessia do Atlântico. Desse modo, a permanência na Holanda resultou em muitos enfermos e 39 óbitos, colaborando para o surgimento da incerteza e do sentimento de abandono entre os colonos. Alguns expressavam seu descontentamento manifestando o desejo de regressar à Suíça; outros, abandonando antigos hábitos, adaptavam-se às novas condições de vida. Em determinados casos, houve até certo relaxamento moral, como observou o vigário Joye.

A partida em direção à América do Sul iniciou-se em 11 de Setembro, do porto de St-Gravendeel. Nessa data, o veleiro hamburguês Daphné, transportando 197 colonos, aproveitou o vento favorável e tomou a rota do oceano. No dia seguinte, partiram, sucessivamente, o Urania, com 437 imigrantes, o de Berne, e o americano Debby Elisa, com 233 jurasianos. Um mês mais tarde, os colonos, remanescentes em Mijl, foram encaminhados para Amsterdã e, de lá, para Den Helder. Deste porto partiram, no dia 10 de Outubro, o "Heureux Voyage", com 442 passageiros, o "Elizabeth Marie", com 228, e o "Camillus" com 119 emigrantes. E, ainda, na primeira quinzena de Outubro, o veleiro "Trajan" deixa o porto de St-Gravendeel, transportando as bagagens dos colonos.




A terceira etapa da viagem - A travessia do Atlântico

O percurso através do Oceano Atlântico foi feito com navios à vela de diferentes nacionalidades e tonelagens, sete deles transportavam passageiros enquanto um foi lotado com bagagens. A maior parte dos veleiros seguiu viagem com excesso de passageiros, de acordo com as regras de navegação da marinha holandesa.

Em cada embarcação foi fixado um regulamento que informava as funções do capitão, assim como sobre as rotinas que deveriam ser adotadas à bordo. Uma delas previa o emprego de homens entre 18 e 45 anos, no serviço da guarda e em tarefas gerais; outra regulava sobre a limpeza dos navios. Sete artigos tratavam de aspectos da higiene pessoal que deveriam ser observados. As práticas religiosas também foram ordenadas pelo regulamento, segundo o qual os padres deveriam ministrar as preces diárias e os ofícios dos domingos e demais dias festivos. Na ausência do sacerdote, o que era a regra, pois havia apenas dois padres viajando entre as oito embarcações, o chefe de família mais velho assumiria as funções sacerdotais. Três refeições diárias foram previstas, com cardápios compostos de carnes secas, algumas leguminosas, laticínios, mel, vinho e aguardente. Houve falta de alimentos frescos, o que determinou a carência de complexos vitamínicos essenciais à resistência orgânica dos emigrantes, já bastante ameaçada por condições adversas e moléstias.

A duração da travessia oceânica variou conforme a data de embarque e o volume transportado por cada veleiro. O "Elizabeth-Marie", por exemplo, navegou mais rapidamente que o "Urania", mais pesado, e gastou 21 dias a menos de viagem. Os incidentes técnicos, em alguns casos, foram motivo de atraso na conclusão do percurso. O "Debby-Elisa" permaneceu quase 20 dias a mais no mar, em virtude do desconhecimento de seu capitão a cerca da situação do porto do Rio de Janeiro, e navegou em direção ao sul sem encontrar a entrada da Baía de Guanabara, somente localizada após vários dias. Os veleiros de "Camillus" e "Deux Catherine" foram os que gastaram mais tempo para completar o percurso, respectivamente 122 e 146 dias. O "Camillus" encalhou na costa inglesa, permanecendo para reparos no porto de Ramsgate, por volta de dois meses. O "Deux-Catherine", por imprevidência de seu capitão ficou à deriva na entrada da Baía de Guanabara, afastando-se da costa brasileira muitas milhas e somente retornando ao litoral fluminense após quase dois meses, em função dos efeitos de ventos contrários.

A face mais dramática desta etapa da viagem ficou registrada no número de óbitos que foi significativo em todos os navios. De um modo geral, um entre seis emigrantes faleceu na travessia do atlântico, essa proporção quase duplica, quando consideramos isoladamente o veleiro "Urania", que transportou 437 passageiros dois quais 107 foram sepultados no mar. Entre tantas condições adversas, certamente a estadia prolongada em ambiente insalubre como o de Mijl foi o que mais contribuiu para o quadro mórbido desta emigração. Lá começam a manifestar as epidemias que iriam se apresentar com maior intensidade em etapas posteriores da viagem, como a varíola, a malária e o tifo. As doenças foram introduzidas nas embarcações através da água que abasteceu os navios que partiram do porto de St-Gravendeel, nas proximidades de Mijl. Este aspecto explica a maior mortalidade associada aos colonos embarcados em Den Helder.



A quarta etapa da viagem - A chegada ao Rio de Janeiro

Chegando ao Rio de Janeiro, os colonos não desembarcaram imediatamente, tendo recebido a bordo autoridades brasileiras, médicos e funcionários da alfândega. Um testemunho sobre a chegada do "Daphné" ressalta a acolhida calorosa feita pelo inspetor da colonização estrangeira - Monsenhor Miranda - que visitou pessoalmente o navio e enviou aos recém- chegados: pães, laranjas, bananas, vinho e aguardente. Somente os passageiros de maior influência tiveram a oportunidade de desembarcar e conhecer a Corte do Rio de Janeiro. Se a paisagem da Baía de Guanabara revelou-se de grande beleza para o colono Porcelet, o padre Joye considerou ruas e casas da cidade feias e mal contruídas.



A última etapa da viagem - A subida da serra até a Vila

Se a paisagem da Baía de Guanabara revelou-se de grande beleza para o colono Porcelet, o padre Joye considerou ruas e casas da cidade feias e mal construídas. A última etapa da viagem iniciaria-se no dia seguinte ao da chegada. Pequenos barcos à vela conduziram os colonos pelo interior da Baía, penetrando na Foz do Rio Macacu e atingindo Tamby (atual Itambi).

Em Tamby, foram montadas 60 barracas que acolheram, por 5 dias, os cansados viajantes; primeiro repouso em terra firme após meses de navegação.

O trajeto continuaria rio acima em direção à então denominada Vila de Macacu, próximo a Porto das Caixas. Nesta localidade, de apenas uma rua e poucas casas, se destacava um antigo prédio que abrigara uma missão jesuíta. Nele foi improvisado um hospital que atendeu a muitos suíços enfermos e registrou os 35 óbitos daqueles cuja resistência não foi suficiente para terminar a viagem. A partir desta vila, o comboio seguiu por via terrestre, sendo utilizadas carroças para transportar crianças, mulheres e bagagens. Os homens prosseguiram a pé ou a cavalo.

Pouco a pouco os suíços iam entrando em contato com a realidade brasileira. Alcançando a fazenda do Colégio observaram, admirados, um engenho de açúcar com grande número de escravos. O percurso continuava, conduzindo-os a Santana (atual Santana de Japuíba). Mais a frente, na fazenda do Coronel Ferreira, os carros de boi (com seu ruído característico) despertariam a atenção dos imigrantes, pois há muito não eram usados na Europa.

Após este trecho, iniciou-se a subida da serra, feita a cavalo ou a pé, onde se destacou a imensidão da paisagem e a exuberância da floresta tropical.

Enfim, depois desta etapa de 12 dias, considerada a mais tranqüila da viagem, terminava a longa jornada. Dos 2006 emigrantes que partiram da Suíça, 1631 chegaram a Nova Friburgo, sendo registrados, durante todo o percurso, 389 óbitos e 14 nascimentos.


Mapas com as rotas percorridas pelos imigrantes suíços


Rota percorrida em solo Europeu


Caminhos pelo vale do Macacu e a subida da Serra



















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