O ano de 1820
O ano de 1820

Em 4 de março, às 14 horas, o Inspetor Monsenhor Miranda chega a Nova Friburgo, onde é calorosamente saudado pelos suíços com tiros de mosquete e empregados portugueses. No dia seguinte, o padre Joye celebra missa de Ação de Graças, dirigindo palavras amigas aos seus paroquianos, evidenciando as bondades do rei e de seu mandatário.

Na sexta-feira, dia 6 de março, as primeiras providências são tomadas e, com elas, a publicação de alguns avisos de atenção: "É proibido caçar sem o consentimento prévio do Inspetor"; "Aos casos de furtos e roubos, os culpados serão punidos com severidade". Com estas e outras medidas administrativas, o Monsenhor Miranda, aos poucos, implanta a sua política de direção da colônia. Em 15 de março, surge a necessidade de uma força policial. Para dirigi-la, é convidado o francês Charles-Emmanuel Quévremont. Este, já intitulado Comissário Geral Provisório de Polícia, realiza, nesta ocasião, um apelo a todos: para que colaborem da melhor maneira possível; em especial, os pais e chefes de família, para manutenção da ordem e tranqüilidade de toda colônia.

Também, com objetivo de embelezar a cidade, muitas ferramentas são distribuídas para que possam ser realizadas algumas obras de melhoria. Pontes são construídas, abrem-se algumas valas para escoamento da água, etc. Segundo Martin Nicoulin, em seu livro A Gênese de Nova Friburgo : "não há muito empenho dos colonos na execução destes serviços, o que força o Comissário Geral a tomar atitudes mais enérgicas, impondo serviço obrigatório para todos".

No final de março de 1820, a situação da colônia era a seguinte: 100 casas haviam sido construídas para abrigo dos colonos. Eram moradias pequenas, em número insuficiente para os 1.668 suíços recém-chegados. A superlotação foi inevitável. A média de moradores por casa era altíssima, em torno de 17. Famílias convivendo junto à outras (numa mistura não muito agradável, algumas ainda doentes, órfãos por toda parte), agravavam, ainda mais, a vida em Nova Friburgo no início daquele ano. Contudo, a esperança era grande; afinal, para a grande maioria, o pior havia passado. Nova Friburgo estava apenas iniciando.



Festa de comemoração da cidade

17 de abril de 1820, foi o dia escolhido para o assentamento simbólico do marco de fundação da cidade de Nova Friburgo. Uma grande comemoração foi, então, preparada. O Ministro Ouvidor da Comarca do Rio de Janeiro viaja para Nova Friburgo, enviado pelo rei D. João VI, para acompanhar e representá-lo na festa comemorativa de fundação da cidade. Organizam-se cortejos e discursos. Os colonos vestiam suas melhores roupas. Todos estavam felizes. Fogos, tambores, salvas de morteiros, ecoavam pelo vale. Nova Friburgo estava em festa. Houve um banquete na casa do administrador e, ao cair da tarde, neste mesmo local, organizaram um baile no salão principal, onde todos dançaram e cantaram músicas típicas de suas pátrias. Nesta mesma noite, o Inspetor escreve uma carta ao rei, destacando o significado do acontecimento.

Nova Friburgo, afinal, existe e está organizada. O que, até certo ponto, nos confunde, é: Por que a comemoração de aniversário em 16 de maio? A data de concretização do projeto, desde o dia da primeira visita de Gachet, se dá em 17 de abril. Afinal de contas, durante este período, muita coisa poderia ter acontecido desfavoravelmente e impedido a realização desse sonho.



Início das atividades agrícolas

Até esta data, os colonos suíços permaneciam em Nova Friburgo, afastados de qualquer atividade agrícola ou comercial que pudesse lhes render meios para subsistência. Principalmente, no que diz respeito à agricultura, o desconhecimento de algumas informações era muito grande, o que gerava muitas dúvidas e incertezas.

Em 29 de março de 1820, algumas conferências agrícolas são realizadas na Casa de Inspeção. Numa dessas reuniões, participaram 4 colonos suíços e 3 agricultores portugueses. Eis um resumo das principais questões tratadas nesta oportunidade:

1- Épocas favoráveis ao desmatamento: Maio, junho e julho através de queimadas;
2- As melhores regiões: Terrenos expostos ao nascente, de vegetação verde-escura;
3- As melhores culturas: Primeira: milho ou trigo; Segunda: feijão; Terceira: batatas;
4- As melhores variedades de batatas: Inglesa de casca vermelha;
5- As frutas mais cultivadas: Laranja, limão, banana e pêssegos;
6- Viticultura: Não é muito praticada.

Depois dos levantamentos e estudos necessários, os suíços irão receber lotes de terra para cultivo. Então, no dia 23 de abril, após a missa, é organizado um sorteio. Na presença de autoridades portuguesas, cada chefe de família retira de um saco (contendo 97 bilhetes numerados) um único número que corresponderá a um dos lotes demarcados pelo estado. Segundo a legislação, o lote sorteado passará às mãos do colono sem qualquer tipo de ônus. Cada lote de terra possui 300 x 750 braças de área. A qualidade dos lotes favorece a maioria; contudo, alguns são prejudicados e terão os seus lotes trocados por outros reservados com este objetivo, após exame e certificação.

Em 26 de abril, inicia-se o processo de visita e reconhecimento das terras. Turmas de colonos armados são organizadas com este propósito. Não é uma tarefa fácil. As florestas são fechadas; o acesso, difícil e, por vezes, os mateiros escolhidos (na maioria portugueses) não estão muito familiarizados com a região, ainda pouco explorada.

Depois de completada a fase de reconhecimento e marcação das propriedades, iniciam-se os desmatamentos. O mês de maio é propício a esta tarefa, pois inicia-se o período de estiagem. É o início de uma fase crítica. O Administrador alerta: "É preciso que os suíços compreendam bem essa necessidade, que todos, sem exceção, sintam a urgência de garantir, por meio de suas culturas e colheitas deste ano, a subsistência do ano seguinte e assim por diante". De fato, no ano seguinte, os subsídios seriam reduzidos à metade. A implementação da atividade agrícola, portanto, se fazia com a máxima urgência. O processo, inicialmente, torna-se lento. Muito colonos retardam o início dos trabalhos em seus lotes. Alguns por estarem, ainda, acamados; outros estão retidos nas obras públicas de melhoramento da cidade.

Somente em 20 de agosto, a situação se normaliza. Agora, todos os colonos encontram-se em suas terras, trabalhando em suas lavouras. Sementes foram distribuídas em cumprimento às cláusulas do contrato do Rio. Mulas e vacas, igualmente, são distribuídas aos colonos; contudo, são tão selvagens que, apesar dos cuidados, fogem e se perdem nas densas florestas locais.

Naquela época, de uma maneira geral, as condições climáticas eram favoráveis. A colônia demonstra uma agricultura promissora e não tão rudimentar. Em algumas colinas já se estende uma vinha modelo bastante grande. As fazendas crescem com construções de casas, celeiros, etc. Em geral, são construções toscas, de madeira, com cobertura de folhas de palmeira devidamente amarradas.

Não se sabe, exatamente, quais serão as condições do clima no decorrer dos próximos meses. Em 3 de outubro, verifica-se que grande parte das mudas plantadas brotam com vigor, alimentando, ainda mais, as esperanças de uma boa colheita. Nos capítulos adiante poderemos observar a dura realidade das chuvas de novembro e as terríveis conseqüências que daí advieram.



A primeira festa do padroeiro

Dia 23 de Junho, dia de festa. Nesta data celebra-se São João Batista, padroeiro da cidade de Nova Friburgo, conforme vontade expressa do rei durante as negociações no Rio de Janeiro.

Nesse dia, sábado, já às 5 horas da manhã, a cidade é despertada com tiros de morteiros. Um desfile é organizado, composto por 100 antigos militares suíços. Às 10 horas, celebra-se, na capela da Casa de Inspeção (transformada em igreja paroquial), solenidade em homenagem ao santo padroeiro.

O dia 23 também coincide com importantes decisões do rei em beneficio da colônia, na tentativa de garantir o sucesso de seu desenvolvimento.

A primeira série de decretos diz respeito ao desenvolvimento econômico da cidade. Monsenhor Miranda é autorizado a distribuir terrenos para aqueles que quiserem empresariar atividades não agrícolas. Créditos são concedidos, na tentativa de incentivar o comércio e a indústria.

Numa segunda etapa, nova série de decretos para o embelezamento da cidade; e, outros, para construção de edifícios de interesse coletivo: um hospital, uma escola (para o ensino de português, latim e especialidade veterinária), um museu e um jardim botânico. Para garantir o sucesso destes empreendimentos, o Inspetor decide criar uma comissão para cuidar de cada projeto separadamente.



A realidade dos primeiros meses

Por tudo que vimos até agora, podemos, erradamente, supor que o início da colonização suíça, em Nova Friburgo, correu às mil maravilhas. Contudo, a realidade é outra. Desde a permanência na Holanda, famílias inteiras acumularam incertezas quanto ao futuro dos seus. Durante todo este tempo de viagens: noites mal dormidas, mortes, fome e desgraças; os suíços foram levados a um estado deplorável de saúde física e espiritual, talvez no limiar do limite humano. Segundo registros deixados por aqueles que acompanharam toda esta aventura, e por algumas poucas cartas conhecidas, podemos imaginar quão grande foram os sofrimentos.

As conseqüências foram inevitáveis. As doenças e as mortes prosseguiam em escala acelerada.

O quadro abaixo demonstra a mortalidade nos seis primeiros meses:


MÊS ÓBITOS
Janeiro 20
Fevereiro 13
Março 17
Abril 41
Maio 19
Junho 21
Total 131


Em abril, o número de mortes desperta a atenção das autoridades. Acreditava-se, até então, que as mortes eram devidas à viagem. Estudos devem ser feitos. Três médicos são convidados a estudar o assunto: 1 médico francês e 2 portugueses.

O médico francês é decidido em suas afirmações, porém muito restrito. Dos pacientes que cuidou na Holanda, Inglaterra e Brasil, o quadro diagnóstico apresentado era sempre o mesmo: diarréias acompanhadas de febres. De modo algum as doenças podem ser atribuídas ao clima ou outra condição qualquer predominante em Morro Queimado.

O segundo médico, português, de nome Arnaud, leva em consideração as condições da emigração, a travessia e a mudança de clima. Com pequenas diferenças, chega às mesmas conclusões do seu colega francês.

O terceiro e último relatório, bem mais completo que os demais, será conservado e apresentado à corte do Rio de Janeiro. O médico Castilho é professor da faculdade de medicina de Coimbra e sua opinião é completa e evidente. Neste relatório, entre tantos pontos, o médico afirma: O clima em Nova Friburgo é sadio, e que as doenças tiveram início na Holanda, sendo agravadas durante a difícil viagem até a colônia. Relata, ainda, as medidas preventivas que devem ser tomadas para eliminar, em definitivo, os focos das doenças.

Em parte, este relatório serve para acusar os organizadores da colônia. Muito, de certo, deixou de ser realizado. As péssimas condições de habitação, o superpovoamento da colônia, alimentação ruim e água de péssima qualidade, proveniente de poços (numa região onde as nascentes são muitas) eram pontos que comprometiam, em muito, as decisões, até então, tomadas.

O futuro confirmará esses dados. Com a chegada do período de estiagem, o clima de Nova Friburgo fica bem mais seco e contribuirá, em muito, para o restabelecimento dos doentes.



O fracasso das primeiras colheitas

Estamos no início de Novembro. Fim do período de estiagem e começo das chuvas. O mau tempo impedirá a continuidade dos trabalhos no campo e na cidade. Os meses de dezembro e janeiro não são diferentes. Os colonos, pela primeira vez, irão conhecer a realidade do verão brasileiro, mais especificamente, o verão de Nova Friburgo. As catástrofes são inúmeras tanto na cidade como nos campos. As esperanças nascidas com as primeiras brotações definham e morrem, diante da calamidade provocada pelas chuvas. Desanimados, abandonam as fazendas e retornam para cidade. Contudo, Nova Friburgo também sofre. Riachos trasbordam, levando com eles pontes, árvores, jardins e pequenos animais indefesos. A maioria das obras de melhoramento e embelezamento da cidade se perde diante da força das águas. A enchente atinge algumas casas. Tudo está inundado. Friburgo, antes bonita, mais parece um alagadiço. O progresso estancou. Tudo terá que ser refeito. Diante de tal situação, alguns estão completamente apáticos; outros, mesmo desanimados, demonstram, ainda, uma ponta de coragem e acreditam na reconstrução.

O primeiro trimestre de 1821 será desolador. Os suíços, sem perspectivas, entregam-se ao álcool. Surgem as primeiras tabernas. As autoridades preocupam-se com a situação. Há de ser observado que a vida em Nova Friburgo se deteriora, em conseqüência do fracasso das colheitas. O Inspetor da colônia toma enérgicas providências para conter os abusos e a desordem. Por fim, alguns suíços se desentendem, trocam insultos e, em alguns casos, se agridem fisicamente. Nova Friburgo vive sua primeira onda de violência e criminalidade. O sonho parece ter chegado ao final. Nova Friburgo vegeta.

Os suíços procuram uma saída. Alguns retornam ao Rio de Janeiro em busca de trabalho e sustento. Outros, de mais sorte, ainda sustentam suas terras e trabalham. Na cidade, os trabalhos não estão totalmente paralisados. A reconstrução é lenta pela falta de recursos e de mão-de-obra. Vêem-se, agora, escravos trabalhando no lugar dos suíços. Apesar dos esforços, a situação é crítica. A maioria dos colonos permanece ociosa e isso é extremamente perigoso.

Pior ainda é a situação das crianças órfãs da colônia. Monsenhor Miranda luta em vão contra todas as dificuldades que surgem dia após dia. Delegações são organizadas e partem para o Rio de Janeiro em busca de ajuda. São enviados ofícios ao rei, solicitando animais de carga, aumento dos subsídios e doação de terras mais cultiváveis. O rei se cala. O que estaria acontecendo? Para desgraça dos suíços, o Brasil vive tempos de crise. Reviravoltas políticas em Portugal provocam revolução na Bahia. Exigem uma nova constituição. Os Ministérios, assim como o rei, diante da grave crise nacional, não tinham tempo para se ocupar dos problemas de Nova Friburgo. Essa infeliz coincidência iria atingir em cheio a colônia suíça.

Em 07 de março, é publicado o decreto que anuncia a partida de D.João VI para Portugal. No dia 26 de abril, o rei parte para Lisboa acompanhado de 3.000 pessoas. No Brasil fica o seu filho, Pedro, como príncipe regente. Essa reviravolta política punha abaixo todos os planos da colônia. Monsenhor Miranda, que pedira demissão, parte para Portugal, juntamente com o rei. Nova Friburgo fica inteiramente esquecida. Os subsídios são inteiramente cortados. Essa situação irá perdurar até meados de junho de 1821. Durante este período, sabe-se muito pouco a respeito. São poucos os registros dos acontecimentos, e isto é facilmente explicável, já que a administração do estado voltava-se totalmente para a crise política estabelecida.

Em 31 maio de 1821, A Sociedade Filantrópica Suíça do Rio de Janeiro. Um grande movimento de ajuda à colônia tem início. Donativos são recolhidos no Rio de Janeiro, na Suíça, na França e em Londres. As esperanças retornam finalmente.



Nova Friburgo retoma o crescimento

Em 29 de agosto de 1821, o príncipe regente retoma o projeto do rei e assegura a prosperidade de Nova Friburgo. Retorna a política de subsídios e, em especial, autoriza formalmente os suíços a deixarem Nova Friburgo em busca de novas terras. Nomeia novo administrador, em 1o de setembro, João Vieira de Carvalho, com mais poder que seu predecessor. Ao tomar conhecimento dessas notícias, Joye exulta: "É o fim do despotismo, do arbítrio. O reino dos opressores terminou".

Chega, então, os dias de uma nova colheita. Desta vez, vê-se os campos repletos de milho e feijão. As fazendas são reconstruídas. Casas mais sólidas substituem os primeiros barracos. Melhoramentos são realizados por toda a parte.

Em dezembro de 1822, esta tendência continua. Alguns relatam que os suíços, persistentes e laboriosos, estão, em definitivo, afastados da miséria. Alguns gozam de conforto e fartura com a venda de suas safras. Outros, animados, tentam pôr em prática alguns de seus costumes helvéticos, como a produção de queijos e vinhos. A criação de vacas e porcos também é promissora.

Até 1824, esta situação irá se manter inalterada. Nova Friburgo floresce diante do trabalho incessante dos colonos.

Em maio de 1824, a chegada de 343 alemães dará novos rumos a colônia.

Nova Friburgo estava, plenamente, estabelecida.
Educação Ambiental na Prevenção de Desastres Naturais (02-05-2012)
Seminário de Abertura na Câmara Municipal a
partir das 10:00h nos dias 03 e 04 de maio.

Projeto do Bicentenário de Nova Friburgo (19-11-2011)
Projeto do Bicentenário de Nova Friburgo dá a partida em direção aos 200 anos de nossa cidade

Bicentenário NF (01-10-2011)
O Bicentenário de Nova Friburgo

Lista dos Aprovados - Concurso de 1999 (30-08-2011)
AVISO IMPORTANTE
Sobre o Concurso Público de 1999

I Encontro Estadual de Arquivos (19-08-2011)
A Fundação D. João VI de Nova Friburgo estará presente para uma apresentação dos trabalhos de digitalização e uma demonstração da tecnologia desenvolvida

O Pró-Memória e o Arquivo Nacional (13-08-2011)
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